Filho de Érico Veríssimo, um dos maiores nomes da literatura nacional, Luis Fernando Verissimo nasceu em Porto Alegre, em 26 de setembro de 1936. Aos 16 anos, foi morar nos EUA, onde aprendeu a tocar saxofone, hábito que cultiva até hoje – tem um grupo, o Jazz 6. É jornalista, mas “do tempo em que não precisava de diploma para exercer a profissão”. Antes de se dedicar exclusivamente à literatura, trabalhou como revisor no jornal gaúcho Zero Hora, em fins de 1966, e atuou como tradutor, no Rio de Janeiro. Casado há mais de 30 anos com Lúcia Verissimo (“não é a atriz, não é a atriz!”), sua primeira “namorada séria”, tem três filhos: Fernanda, Mariana e Pedro.

domingo, 13 de março de 2011

A grande final - Crônica semanal do Bom Dia (10/03/11)

Eu era bom no totó. Ou pebolim, ou como quer que chamem aquele futebol de mesa com os bonequinhos. Aquele que o pessoal dos videogames hoje dá risada só de ouvir falar. E eu era imbatível no totó.

É verdade que jogava muito sozinho. Meu time, o Fluminense, magistralmente manejado, envolvia completamente o estático Flamengo do adversário ausente. Mas, de tanto treinar contra ninguém, na infância e na adolescência, acabei melhor do que todos os adversários reais que eventualmente enfrentava. 

Até aparecer o Iñaki.

O Iñaki era basco. Tinha se casado na Espanha com a minha prima Heloísa e os dois estavam morando em Porto Alegre. Ele ia muito na nossa casa, para ouvir os discos de Mozart do meu pai e jogar totó comigo.

Não era apenas um exímio jogador. Também era um teórico do totó.

Foi ele que não só decidiu trocar a tradicional bola de ping-pong por uma menor, de madeira, que facilitava o controle, como mandou fazer as bolas de acordo com suas especificações precisas.

E me ganhava sempre. Descobriu, inclusive, uma maneira de anular a minha jogada mais mortífera, um passe lateral para o Bigode chutar de longe que nunca falhava. Contra o Iñaki o Bigode não acertava uma.

Uma vez fizemos um torneio de totó na nossa casa. Apenas um pretexto para reunir os amigos. Depois da comida, a mesa de jantar foi afastada e substituída pela de totó. 

Jogos eliminatórios, mata-mata. Meu desempenho foi digno. Ajudado pelo fator campo, cheguei a uma semifinal, mas fui eliminado. Pelo Iñaki, claro.

O Iñaki foi para a decisão com o vencedor da outra semifinal. E finalmente encontrou um adversário que o igualava em técnica e vontade de ganhar: Elias Figueroa!

O zagueiro chileno que na época era o grande ídolo do Internacional e iria comandar o time na conquista de um bicampeonato brasileiro. E que era o campeão de totó das concentrações do Inter.

Sinto dizer (anticlímax) que não me lembro quem ganhou a grande final. Sei que durante a batalha os brasileiros se retraíram: era Chile contra País Basco, uma questão de outro sangue, nada a ver conosco.

Só nos restava dar espaço às feras.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Romances: Gula: o Clube dos Anjos (Objetiva, 1998)

Encomenda para uma coleção sobre os sete pecados capitais. Para falar de amizade e gastronomia, Verissimo parodia os mistérios policiais ao estilo Agatha Chistie com um grupo de convidados à mesa de  jantar — e a subsequente morte de um deles. Em uma confraria de 10 amigos dedicados à boa mesa (que já viu dias melhores), os integrantes vão morrendo um a um após saborosos jantares oferecidos por seu mais novo integrante, o misterioso Lucídio. Verissimo confirma neste romance o estilo que lhe será recorrente: metalinguagem, a prosa leve do mestre da crônica e humor que vai da piada simples ao sofisticado uso de referências eruditas.

terça-feira, 8 de março de 2011

Moacyr - Crônica do Estadão e do Bom Dia (03/03/11)

Eu brincava com o Moacyr Scliar e dizia que ele era a vergonha da classe literária: um escritor que não bebia. Ou, pior, só bebia Malzbier. Ele também tinha horror a peixe, contava com muito humor seu martírio diante de sushis e sashimis quando visitou o Japão. Viajamos juntos algumas vezes mas ele me ganhava em matéria de trotear pelo globo. Certa vez nos encontramos em Carlos Barbosa, no interior do Rio Grande do Sul, mas foi um encontro muito rápido, ele estava indo dali a minutos para Tocantins! O Moacir vivia assim, de Carlos Barbosa para Tocantins com escalas em Nova York e Paris, sem perder os chás da Academia nas quintas. Eu invejava seu talento e sua estampa de príncipe russo mas invejava, acima de tudo, suas milhas acumuladas.
Era uma pessoa extremamente generosa e solidária. Quando um leitor me chamou de antissemita no jornal, o primeiro telefonema que recebi foi do Moacyr dizendo para não dar bola, ele mesmo já tinha sido chamado de antissemita várias vezes pela sua posição no conflito de Israel com os palestinos. Sua preocupação com saúde pública e com a questão social vinha dos seus tempos de estudante de medicina e se refletiu desde o começo na sua obra literária. Que nunca foi panfletária mas sim encharcada de humanismo e compaixão - mesmo quando tratava de personagens em guerra com o mundo. Nenhum outro escritor brasileiro que me ocorra dominou, como o Moacyr, aquela estreita faixa da imaginação entre o cômico e o trágico também frequentada por Kafka, Vonnegut e alguns poucos outros. E ele foi o único praticante, no Brasil, do melhor humor judaico, com suas narrativas urbanas e modernas que nunca deixavam de evocar arquétipos e mitos antigos, como se dispensadas por um xamã tribal num bar do Bonfim, o bairro judeu de Porto Alegre.
Sua obra foi extensa, mas meus Scliars favoritos são A Guerra no Bonfim, O Exército de Um Homem Só e Os Voluntários, talvez por serem dos seus primeiros livros, os que revelaram sua originalidade. Nos enchíamos de orgulho, um pouco por bairrismo gaúcho e muito pela nossa velha amizade, sempre que em qualquer livraria da Europa ou dos Estados Unidos víamos os livros traduzidos do Moacyr numa prateleira. Os livros, pelo menos, vão continuar a andar pelo mundo. 

sábado, 5 de março de 2011

A aposta do barão

   Quem dentre vós nunca sonhou em criar o seu próprio agente secreto inglês que atire o primeiro James Bond. Certa vez, pensei em inventar um superagente brasileiro, Jaime Alguma Coisa, e escrever suas aventuras no mundo da intriga internacional, mas não deu certo. Por alguma razão, sempre que eu começava a descrevê-lo, saía um tipo magro, baixo, orelhudo, de bigodinho, o único no departamento a torcer pelo América, e que enjoava em avião. Sua classificação de 00664853 barra 7 lhe permitia andar armado, virar a gola do seu impermeável para cima e fazer um lanche por dia à custa do departamento, com comprovante. Na primeira página da primeira aventura que imaginei para ele, o chefe da espionagem, seu superior, examina o dossiê de um caso dificílimo que tem à sua frente, morde a haste do cachimbo e decide: “Este é um caso para o Jaimito”. Parei aí mesmo. Nada de muito sério ― e certamente não aquele caso de espionagem atômica, envolvendo a própria sobrevivência do país, além de dezessete anões iugoslavos e uma falsa condessa ― podia ser confiado ao Jaimito. Além disso, a sua arma secreta, um isqueiro com sessenta e quatro utilidades diferentes, todas mortíferas, falhava até para acender cigarro. Desisti do Jaimito. Agente secreto inglês tem que ser inglês. Como este que acabei de criar.
   Peter Vest-Pocket encurtou a Segunda Guerra Mundial em oito meses (“e três dias”, acrescenta ele, com característica atenção ao detalhe), quando decifrou para os Aliados os códigos do Alto-Comando alemão ― embora tivesse só cinco anos incompletos na ocasião. Seu sorriso enigmático foi responsável por dez tentativas de suicídio em todo o mundo, nove mulheres e um bailarino russo que engoliu a própria sapatilha. É a maior autoridade mundial em peixes tropicais, manuscritos medievais da Europa Central e a vida de Mae West. Suplementa o seu salário do governo jogando pôquer, no qual desenvolveu um método infalível para ganhar sempre: trapaceia.
   Foi no famoso salão cor-de-vômito, o Puke Room do Harbinger’s em Londres, onde você só entra apresentando ao porteiro uma nota assinada pelo Secretário do Tesouro da Inglaterra, de preferência de mil libras, que Vest-Pocket viu-se, certa noite, frente a frente com o único homem no mundo que temia: o Barão Guy de la Recherche. Na mesa, estavam ainda um gordo ex-ministro venezuelano que suava muito, um Emir árabe com óculos tão escuros que precisava de um secretário para lhe dizer que cartas tinha na mão e o rei das batatas chips dos Estados Unidos. Mas Vest-Pocket os ignorou. Seu adversário era de la Recherche.
   Recostado na cadeira com a mão direita erguida ao lado do rosto, segurando um dos charutos que Fidel lhe mandava semanalmente com aborrecidos bilhetes cheios de admiração juvenil, Vest-Pocket jogava displicentemente com a mão esquerda. Só variava a posição quando dava as cartas e aí prendia o charuto entre os dentes e usava as duas mãos para embaralhar, servir a mesa e tirar cartas da manga quando a situação o exigisse. Periodicamente, levava à boca um copo de aguardente feito especialmente para ele, na Bolívia, com a saliva de jovens índias que mascavam a raiz sagrada do peiote ― e duas gotas de Beneditino.
   Às quatro horas da madrugada, tendo mantido o jogo razoavelmente equilibrado até ali para não espantar ninguém, Vest-Pocket viu a sua chance. O barão, que sempre passava um dedo pelo seu afilado nariz quando tinha um bom jogo nas mãos, esfregava o nariz como nunca. E o secretário que lia as cartas para o Emir acabara de segredar alguma coisa no ouvido do seu mestre que o fizera sorrir, quase imperceptivelmente. O venezuelano e o americano estavam de fora. Chegara a hora. Tudo dependia daquela jogada. Vest-Pocket dava as cartas.
   O barão não quis cartas. O emir pediu uma, que obviamente o agradou. Peter descartou duas e tirou da manga as duas que faltavam para o seu royal street flush.
   O emir não tinha fichas suficientes para apostar e colocou na mesa um cheque de cem mil libras.
   “Suas cem”, disse o Barão, tirando um livro de cheques do bolso, “e mais cem.” 
   “As suas duzentas”, disse Peter, “e mais quatrocentas.”
   “As suas seiscentas”, disse o emir, “e mais o número da minha conta na Suíça e uma autorização para sacar tudo ...”
   “Não aceitamos hipóteses, queremos cifras”, disse Peter, com tamanha autoridade que o emir não disse outra palavra. “Barão?”
   “As suas seiscentas...” começou o barão, “e o que você quiser, meu amigo. Minha propriedade no Loire? A minha ilha nas Caraíbas? Meus cavalos na Argentina? Diga você.”
   “Quero a sua receita de mousse de salmão.”
   “O quê? Impossível. É um segredo de família. Ninguém mais a conhece. O meu prato supremo.”
   Exatamente, pensou Peter Vest-Pocket. Enquanto o Barão de la Recherche detivesse o segredo daquela mousse de salmão, ele, Peter, não podia se considerar o melhor cozinheiro amador do mundo. Com a receita da mousse de salmão, ele seria imbatível. Não precisaria mais temer a reputação de ninguém. Sem tirar os olhos dos olhos do Barão, Peter falou:
   “Aumente a parada, pague para ver ou silencie para sempre. Se eu ganhar, quero a receita da mousse dentro de quarenta e oito horas, pois pretendo receber algumas pessoas para jantar.”
   (Ao leitor decepcionado com a falta de ação, violência e intriga internacionaldezessete anões iugoslavos e seus exóticos métodos de matar o inimigo a cócegas entram depois.)

sexta-feira, 4 de março de 2011

A cláusula do elevador

   Porque eram precavidos, porque queriam que sua união desse certo, e principalmente porque eram advogados, decidiram fazer um contrato nupcial. Um instrumento particular, só entre os dois, separado das formalidades usuais de um casamento civil. Nele estariam explicitados os deveres e os compromissos de cada um até que a morte — ou o descumprimento de qualquer uma das cláusulas — os separasse.
   Quando chegaram à parte do contrato que trataria da fidelidade, ele ponderou que a cláusula deveria ter uma certa flexibilidade. Deveria prever circunstâncias aleatórias, heterodoxas e atenuantes. Em outras palavras, oportunidades imperdíveis. E exemplificou.
   - Digamos que eu fique preso num elevador com a Luana Piovani.  Depois de dez, quinze minutos, ela diz “Calor, né?”, e desabotoa a blusa. Mais dez minutos e ela tira toda a roupa. Mais cinco minutos e ela diz “Não adiantou”, e começa a desabotoar a minha blusa... O contrato deveria prever que, em casos assim, eu estaria automaticamente liberado dos seus termos restritivos.   
   Ela concordou, em tese, mas argumentou que a licença pleiteada deveria ser específica, rechaçando a sugestão dele de que se referisse genericamente a “Luana Piovani ou similar”. Ficou decidido que ele estaria automaticamente liberado da obrigação contratual de ser fiel a ela no caso de ficar preso num elevador com a Patrícia Pillar, a Luma de Oliveira ou uma das duas (ou as duas) moças do “Tchan”, além da Luana Piovani, se o socorro demorasse mais de vinte minutos. Isto estabelecido, ela disse:
   - No meu caso...
   - Como, no seu caso?
   - No caso de eu ficar presa num elevador com alguém.
   - Quem, por exemplo?
   - Sei lá. O Maurício Mattar. O Antônio Fagundes. O Odvan...
   - O Odvan não!
   Foi uma negociação longa e difícil, durante a qual ele vetou vários nomes, até ser obrigado a concordar com um, por absoluta falta de argumentos. Ela estaria liberada de ser fiel a ele se um dia ficasse presa num elevador com o Chico Buarque. Mas só com o Chico Buarque. E só se o socorro demorasse mais de uma hora!

quinta-feira, 3 de março de 2011

Romances: O Jardim do Diabo (L&PM, 1988 - a edição atual é da Objetiva)

Com seu primeiro romance, Verissimo já estabelece as regras do jogo: uma trama na qual a experiência do narrador confunde ficção e realidade e a própria literatura é referência temática. Um escritor fracassado de romances de mistério é procurado por um investigador de polícia. O motivo é fantástico: uma mulher foi assassinada em um cenário e com um método idênticos aos descritos em um dos livros do escritor (e isso anos antes do filme Instinto Selvagem). Daí, se vê encrencado com uma trama de paranoia e fantasia tratada sem um pingo de reverência. Ainda hoje é uma das obras mais ousadas de Verissimo, quase um delírio PaulAuesteriano com humor.

Fonte:  Blog Mundo Livro do editor de livros do jornal Zero Hora, Carlos André Moreira.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Infalibilidade - Crônica semanal do Estadão e do Bom Dia (24/02/11)

Os reis estão mais seguros do que os ditadores no norte da África e no Oriente Médio. No Marrocos e na Jordânia, pelo que se lê, a queda dos reis não está entre as reivindicações principais da rua. A revolta está custando a chegar à Arábia Saudita, protótipo de autocracia absoluta na região, e o poder dos aiatolás iranianos não parece estar ameaçado, por enquanto. Já os ditadores estão caindo um a um, como jacas. Governavam como reis mas sem a autorização divina, eram reis ilegítimos. Assim, curiosamente, ao mesmo tempo que dá um belo exemplo de conquista popular de democracia e modernidade, a sublevação endossa, indiretamente, a monarquia. 

Constantino, que transformou o cristianismo de uma seita clandestina na religião oficial do seu império, escreveu certa vez numa carta que sua conversão tinha sido bem recompensada. "Recebemos da Providência Divina o supremo favor de estarmos eternamente livres de qualquer erro." Os ditadores costumam acreditar que junto com o poder absoluto vem, implícito, no pacote, os favores que a Providência Divina concede de nascença aos reis, começando pela infalibilidade. Mas não funciona assim.

Para-infernália. É pura implicância, eu sei. Mas tenho tanta antipatia por toda essa para-infernália eletrônica que, enquanto nos facilita a vida, nos escraviza e nos humilha que vibro a cada notícia de sua desmoralização, por menor que seja. Comemoro cada nova prova de que ela não é infalível. Agora mesmo surgiu um supercomputador, chamado Watson, que venceu dois humanos jogando Jeopardy na televisão americana. Jeopardy é um jogo de respostas que testa a memória e o conhecimento, e a capacidade do Watson de armazenar informação, reconhecer a informação que corresponde à pergunta e enunciá-la antes dos humanos representa um grande avanço sobre os computadores que, por exemplo, derrotavam campeões de xadrez, mas com os quais não se podia ter uma boa conversa sobre filmes, livros, a vida alheia, etc. O Watson não, o Watson sabe tudo. Leu tudo, viu tudo - mas (arrá!) tem uma falha. O Watson às vezes tem dificuldade em contextualizar. É o que seus construtores chamam de Síndrome de Paris Hilton. Se você alimentá-lo apenas com as palavras "Paris Hilton" o Watson se confunde, não sabe se a referência é ao hotel Hilton de Paris ou à herdeira maluquete dos Hilton, Paris. E é capaz de ficar mudo para não dar vexame. Um pequeno defeito para um computador, mas uma grande vitória para a humanidade. Eu não conseguiria vencer um computador nem num jogo de damas mas jamais confundiria a Paris Hilton com um hotel. Ou vice-versa.