Filho de Érico Veríssimo, um dos maiores nomes da literatura nacional, Luis Fernando Verissimo nasceu em Porto Alegre, em 26 de setembro de 1936. Aos 16 anos, foi morar nos EUA, onde aprendeu a tocar saxofone, hábito que cultiva até hoje – tem um grupo, o Jazz 6. É jornalista, mas “do tempo em que não precisava de diploma para exercer a profissão”. Antes de se dedicar exclusivamente à literatura, trabalhou como revisor no jornal gaúcho Zero Hora, em fins de 1966, e atuou como tradutor, no Rio de Janeiro. Casado há mais de 30 anos com Lúcia Verissimo (“não é a atriz, não é a atriz!”), sua primeira “namorada séria”, tem três filhos: Fernanda, Mariana e Pedro.

sábado, 30 de abril de 2011

Corrente de Santo Eurides

   Esta corrente vem do Peru e foi escrita por Benevides de Obregon y Obregon para percorrer o mundo e trazer a fortuna e a felicidade para quem não interrompê-la.
   Faça sete cópias e mande para sete pessoas. Dentro de sete dias você será recompensado por Santo Eurides. Um dentista da Patagônia deu prosseguimento imediato à corrente e foi recompensado uma semana depois, quando atingiu o nervo exposto de um paciente, este lhe deu um pontapé que o fez cair de costas pela janela na frente de uma bicicleta em alta velocidade. Por interferência de Santo Euri­des a bicicleta capotou antes de atingir o dentista, que nada sofreu. O ciclista morreu.
   Já uma manicura em Manágua, Nicarágua, recebeu a corrente e a amassou com gestos nervosos antes de atirar-se sobre um sofá aos prantos, decepcionada, pois pensava tratar-se de uma carta de seu amante, um sargento da Guarda Nacional suposta­mente envolvido na importação clandestina de chiclé-balão. Sete dias depois a manicura foi rezar na igreja no momento exato em que dois colecionado­res americanos fugiam pela porta com metade do altar, da época colonial, perseguidos pelo padre com um castiçal de bronze. O padre tropeçou na ma­nicura, que foi presa por engano como cúmplice dos americanos. O sargento recusou-se a intervir. Houve um terremoto.
   O Sr. Brício Fazetão, de Teresina, acreditou na corrente e mandou para sete parentes. Na mes­ma semana sua cadela Trajana deu cria, o Sr. Brício fez doze pontos na Esportiva e uma sobrinha da sua mulher encontrou os restos calcinados de um satéli­te meteorológico dos Estados Unidos, onde o clima melhorou e as safras não se perderão por completo, segundo os jornais.
   O escrivão Manolo Pinchas, de Antofagasta, não ligou para a carta, prendeu fogo nela, atirou-a no chão, pisou em cima, começou a gritar como um louco e foi recolhido na mesma hora.
   O informante do FBI, Roy M. Boy, da Califór­nia, recebeu a corrente num momento decisivo da sua vida, quando precisava decidir se entrava definitivamente para o Partido Comunista — que ele frequentara para o FBI, como informante, durante vinte anos, e ao qual se afeiçoara — e casava com Lívia, uma anã contorcionista, ou emigrava para o norte do Paraná depois de casar com Moira, uma analista de sistemas gigante. Não deu bola para a carta e sete dias depois foi atacado, estranhamente, pela lagarta da soja. Lívia prendeu um pé no pesco­ço e não conseguiu tirar. O Partido Comunista não o aceitou e pediu que Roy fosse um informante deles dentro do FBI. Roy lembrou-se então da carta, mandou sete cópias, e hoje tem uma lancheria em Londrina, dois filhos — Roy Júnior e Itapiru — e dinheiro no banco.
   Não interrompa a corrente. Faça sete cópias desta carta e mande junto com um cruzeiro para sete pessoas, sendo seis da sua escolha e a sétima Luís Fernando Veríssimo de Porto Alegre, Brasil, que precisa ir à Europa, por Santo Eurides. Amém.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Buuu - Estadão, Bom Dia e O Globo (28/04/11)

Diálogo urbano, no meio de um engarrafamento. Carro a carro.

- É nisso que deu, oito anos de governo Lula. Este caos. Todo o mundo com carro, e todos os carros na rua ao mesmo tempo. Não tem mais hora de pique, agora é pique o dia inteiro. Foram criar a tal nova classe média e o resultado está aí: ninguém consegue mais se mexer. E não é só o trânsito. As lojas estão cheias. Há filas para comprar em toda parte. E vá tentar viajar de avião. Até para o exterior - tudo lotado. Um inferno. Será que não previram isto? Será que ninguém se deu conta dos efeitos que uma distribuição de renda irresponsável teria sobre a população e a economia? Que botar dinheiro na mão das pessoas só criaria esta confusão? Razão tinha quem dizia que um governo do PT seria um desastre, que era melhor emigrar. Quem pode viver em meio a uma euforia assim? E o pior: a nova classe média não sabe consumir. Não está acostumada a comprar certas coisas. Já vi gente apertando secador de cabelo e lepitopi como e fosse manga na feira. É constrangedor. E as ruas estão cheias de motoristas novatos com seu primeiro carro, com acesso ao seu primeiro acelerador e ao seu primeiro delírio de velocidade. O perigo só não é maior porque o trânsito não anda. É por isso que eu sou contra o Lula, contra o que ele e o PT fizeram com este país. Viver no Brasil ficou insuportável.

- A nova classe média nos descaracterizou?

- Exatamente. Nós não éramos assim. Nós nunca fomos assim. Lula acabou com o que tínhamos de mais nosso, que era a pirâmide social. Uma coisa antiga, sólida, estruturada...

- Buuu para o Lula, então?

- Buuu para o Lula!

- E buuu para o Fernando Henrique?

- Buuu para o... Como, "buuu para o Fernando Henrique"?!

- Não é o que estão dizendo? Que tudo que está aí começou com o Fernando Henrique? Que só o que o Lula fez foi continuar o que já tinha sido começado? Que o governo Lula foi irrelevante?

- Sim. Não. Quer dizer...

- Se você concorda que o governo Lula foi apenas o governo Fernando Henrique de barba, está dizendo que o verdadeiro culpado do caos é o Fernando Henrique.

- Claro que não. Se o responsável fosse o Fernando Henrique eu não chamaria de caos, nem seria contra.
- Por quê?

- Porque um é um e o outro é outro, e eu prefiro o outro.

- Então você não acha que Lula foi irrelevante e só continuou o que o Fernando Henrique começou, como dizem os que defendem o Fernando Henrique?

- Acho, mas...

Nesse momento o trânsito começou a andar e o diálogo acabou.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Homem que é homem

   Homem que é Homem não usa camiseta sem manga, a não ser para jogar basquete. Homem que é Homem não gosta de canapés, de cebolinhas em conserva ou de qualquer outra coisa que leve menos de 30 segundos para mastigar e engolir. Homem que é Homem não come suflê. Homem que é Homem — de agora em diante chamado HQEH — não deixa sua mulher mostrar a bunda para ninguém, nem em baile de carnaval. HQEH não mostra a sua bunda para ninguém. Só no vestiário, para outros homens, e assim mesmo, se olhar por mais de 30 segundos, dá briga.

  HQEH só vai ao cinema ver filme do Franco Zeffirelli quando a mulher insiste muito, e passa todo o tempo tentando ver as horas no escuro. HQEH não gosta de musical, filme com a Jill Clayburgh ou do Ingmar Bergman. Prefere filmes com o Lee Marvin e Charles Bronson. Diz que ator mesmo era o Spencer Tracy, e que dos novos, tirando o Clint Eastwood, é tudo veado.

  HQEH não vai mais a teatro porque também não gosta que mostrem a bunda à sua mulher. Se você quer um HQEH no momento mais baixo de sua vida, precisa vê-lo no balé. Na saída ele diz que até o porteiro é veado e que se enxergar mais alguém de malha justa, mata.

  E o HQEH tem razão. Confesse, você está com ele. Você não quer que pensem que você é um primitivo, um retrógrado e um machista, mas lá no fundo você torce pelo HQEH. Claro, não concorda com tudo o que ele diz. Quando ele conta tudo o que vai fazer com a Feiticeira no dia em que a pegar, você sacode a cabeça e reflete sobre o componente de misoginia patológica inerente à jactância sexual do homem latino. Depois começa a pensar no que faria com a Feiticeira se a pegasse. Existe um HQEH dentro de cada brasileiro, sepultado sob camadas de civilização, de falsa sofisticação, de propaganda feminina e de acomodação. Sim, de acomodação. Quantas vezes, atirado na frente de um aparelho de TV vendo a novela das 8 — uma história invariavelmente de humilhação, renúncia e superação femininas — você não se perguntou o que estava fazendo que não dava um salto, vencia a resistência da família a pontapés e procurava uma reprise do Manix em outro canal? HQEH só vê futebol na TV. Bebendo cerveja. E nada de cebolinhas em conserva! HQEH arrota e não pede desculpas.
 
*

   Se você não sabe se tem um HQEH dentro de você, faça este teste. Leia esta série de situações. Estude-as, pense, e depois decida como você reagiria em cada situação. A resposta dirá o seu coeficiente de HQEH. Se pensar muito, nem precisa responder: você não é HQEH. HQEH não pensa muito!


  Situação 1

  Você está num restaurante com nome francês. O cardápio é todo escrito em francês. Só o preço está em reais. Muitos reais. Você pergunta o que significa o nome de um determinado prato ao maître. Você tem certeza que o maître está se esforçando para não rir da sua pronúncia. O maître levará mais tempo para descrever o prato do que você para comê-lo, pois o que vem é uma pasta vagamente marinha em cima de uma torrada do tamanho aproximado de uma moeda de um real, embora custe mais de cem. Você come de um golpe só, pensando no que os operários são obrigados a comer. Com inveja. Sua acompanhante pergunta qual é o gosto e você responde que não deu tempo para saber. 0 prato principal vem trocado. Você tem certeza que pediu um "Boeuf à quelque chose" e o que vem é uma fatia de pato sem qualquer acompanhamento. Só. Bem que você tinha notado o nome: "Canard melancolique". Você a princípio sente pena do pato, pela sua solidão, mas muda de idéia quando tenta cortá-lo. Ele é um duro, pode aguentar. Quando vem a conta, você nota que cobraram pelo pato e pelo "boeuf' que não veio. Você: a) paga assim mesmo para não dar à sua acompanhante a impressão de que se preocupa com coisas vulgares como o dinheiro, ainda mais o brasileiro; b) chama discretamente o maître e indica o erro, sorrindo para dar a entender que, "Merde, alors", estas coisas acontecem; ou c) vira a mesa, quebra uma garrafa de vinho contra a parede e, segurando o gargalo, grita: "Eu quero o gerente e é melhor ele vir sozinho!


  Situação 2

  Você foi convencido pela sua mulher, namorada ou amiga — se bem que HQEH não tem "amigas", quem tem "amigas" é veado — a entrar para um curso de Sensitivação Oriental. Você reluta em vestir a malha preta, mas acaba sucumbindo. O curso é dado por um japonês, provavelmente veado. Todos sentam num círculo em volta do japonês, na posição de lótus. Menos você, que, como está um pouco fora de forma, só pode sentar na posição do arbusto despencado pelo vento.
Durante 15 minutos todos devem fechar os olhos, juntar as pontas dos dedos e fazer "rom", até que se integrem na Grande Corrente Universal que vem do Tibete, passa pelas cidades sagradas da Índia e do Oriente Médio e, estranhamente, bem em cima do prédio do japonês, antes de voltar para o Oriente. Uma vez atingido este estágio, todos devem virar para a pessoa ao seu lado e estudar seu rosto com as pontas dos dedos. Não se surpreendendo se o japonês chegar por trás e puxar as suas orelhas com força para lembrá-lo da dualidade de todas as coisas. Durante o "rom" você faz força, mas não consegue se integrar na grande corrente universal, embora comece a sentir uma sensação diferente que depois revela-se ser câimbra. Você: a) finge que atingiu a integração para não cortar a onda de ninguém; b) finge que não entendeu bem as instruções, engatinha fazendo "rom" até o lado daquela grande loura e, na hora de tocar o seu rosto, erra o alvo e agarra os seios, recusando-se a soltá-los mesmo que o japonês quase arranque as suas orelhas; c) diz que não sentiu nada, que não vai seguir adiante com aquela bobagem, ainda mais de malha preta, e que é tudo coisa de veado.


  Situação 3

  Você está numa daquelas reuniões em que há lugares de sobra para sentar, mas todo mundo senta no chão. Você não quis ser diferente, se atirou num almofadão colorido e tarde demais descobriu que era a dona da casa. Sua mulher ou namorada está tendo uma conversa confidencial, de mãos dadas, com uma moça que é a cara do Charlton Heston, só que de bigode. O jantar é à americana e você não tem mais um joelho para colocar o seu copo de vinho enquanto usa os outros dois para equilibrar o prato e cortar o pedaço de pato, provavelmente o mesmo do restaurante francês, só que algumas semanas mais velho. Aí o cabeleireiro de cabelo mechado ao seu lado oferece:

— Se quiser usar o meu...

— O seu...?

— Joelho.

— Ah...

— Ele está desocupado.

— Mas eu não o conheço.

— Eu apresento. Este é o meu joelho.

— Não. Eu digo, você...

— Eu, hein? Quanta formalidade. Aposto que se eu estivesse oferecendo a perna toda você ia pedir referências. Ti-au.

  Você: a) resolve entrar no espírito da festa e começa a tirar as calças; b) leva seu copo de vinho para um canto e fica, entre divertido e irônico, observando aquele curioso painel humano e organizando um pensamento sobre estas sociedades tropicais, que passam da barbárie para a decadência sem a etapa intermediária da civilização; ou c) pega sua mulher ou namorada e dá o fora, não sem antes derrubar o Charlton Heston com um soco.

  Se você escolheu a resposta a para todas as situações, não é um HQEH. Se você escolheu a resposta b, não é um HQEH. E se você escolheu a resposta c, também não é um HQEH. Um HQEH não responde a testes. Um HQEH acha que teste é coisa de veado.

*

  Este país foi feito por Homens que eram Homens. Os desbravadores do nosso interior bravio não tinham nem jeans, quanto mais do Pierre Cardin. O que seria deste pais se Dom Pedro I tivesse se atrasado no dia 7 em algum cabeleireiro, fazendo massagem facial e cortando o cabelo à navalha? E se tivesse gritado, em vez de "Independência ou Morte", "Independência ou Alternativa Viável, Levando em Consideração Todas as Variáveis!"? Você pode imaginar o Rui Barbosa de sunga de crochê? O José do Patrocínio de colant? 0 Tiradentes de kaftan e brinco numa orelha só? Homens que eram Homens eram os bandeirantes. Como se sabe, antes de partir numa expedição, os bandeirantes subiam num morro em São Paulo e abriam a braguilha. Esperavam até ter uma ereção e depois seguiam na direção que o pau apontasse. Profissão para um HQEH é motorista de caminhão. Daqueles que, depois de comer um mocotó com duas Malzibier, dormem na estrada e, se sentem falta de mulher, ligam o motor e trepam com o radiador. No futebol HQEH é beque central, cabeça-de-área ou centroavante. Meio-de-campo é coisa de veado. Mulher do amigo de Homem que é Homem é homem. HQEH não tem amizade colorida, que é a sacanagem por outros meios. HQEH não tem um relacionamento adulto, de confiança mútua, cada um respeitando a liberdade do outro, numa transa, assim, extraconjugal mas assumida, entende? Que isso é papo de mulher pra dar pra todo mundo. HQEH acha que movimento gay é coisa de veado.

  HQEH nunca vai a vernissage.

  HQEH não está lendo a Marguerite Yourcenar, não leu a Marguerite Yourcenar e não vai ler a Marguerite Yourcenar.

  HQEH diz que não tem preconceito mas que se um dia estivesse numa mesma sala com todas as cantoras da MPB, não desencostaria da parede.

  Coisas que você jamais encontrará em um HQEH: batom neutro para lábios ressequidos, pastilhas para refrescar o hálito, o telefone do Gabeira, entradas para um espetáculo de mímica.

  Coisas que você jamais deve dizer a um HQEH: "Ton sur ton", "Vamos ao balé?", "Prove estas cebolinhas".

  Coisas que você jamais vai ouvir um HQEH dizer: "Assumir", "Amei", "Minha porção mulher", "Acho que o bordeau fica melhor no sofá e a ráfia em cima do puf".

  Não convide para a mesma mesa: um HQEH e o Silvinho.

  HQEH acha que ainda há tempo de salvar o Brasil e já conseguiu a adesão de todos os Homens que são Homens que restam no país para uma campanha de regeneração do macho brasileiro.

  Os quatro só não têm se reunido muito seguidamente porque pode parecer coisa de veado.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Negar Fogo

   Negar fogo é humano. Antes de pensar em atirar-se pela janela, examine a situação. Certifique-se de que não existe uma causa psicossomática para o seu fracasso, como a política econômica do governo ou o fato de a sua mulher ou namorada ter aderido ao halterofilismo. Pode não ser culpa sua, ou do seu tecido eréctil. Lembre-se de que existem várias situações em que negar fogo não é só aceitável como até recomendável. Eis algumas: 
  • Vocês namoram há pouco tempo. É a 1ª vez que vão para a cama. Você acaba de tirar a calcinha dela. Descobre que ela tem "Wando" tatuado numa nádega. 
  • Ela convidou-o para o seu apartamento e recebe-o completamente nua mas com um quepe da Gestapo na cabeça e uma coqueteleira de metal numa mão. Depois você descobre que não é uma coqueteleira, é um triturador portátil. 
  • Você introduziu a sua mão sob a blusa dela e sente o mamilo quente crescer contra a sua palma. Ela beija seu o pescoço, depois lambe atrás da sua orelha, finalmente enconta os lábios úmidos na sua orelha e diz: 
    - Gostas do Paulo Coelho? 
  • A porta do quarto se abre e uma senhora gorda de chambre entra arrastando os chinelos e diz: 
    - Não parem, não parem, eu só vim pegar uma lixa no banheiro. 
  • Quando chega o orgasmo, ela começa a bater nos seus rins com os calcanhares e a gritar os nomes dos faraós do Antigo Egito. 
  • Vocês decidiram transar num lugar diferente: na praia, sob as estrelas. Tiraram toda a roupa, correram pela beira do mar de mãos dadas sentindo a brisa salgada no corpo todo. Agora rolam gargalhadas pela areia até caírem numa trincheira cheia de soldados camuflados e serem informados de que estão no meio de uma manobra militar, e é para não fazerem barulho senão vão denunciar sua posição ao inimigo, que observa tudo o que se passa na praia com binóculos infravermelhos. 

   Ás vezes negar fogo tem as mesmas causas do motor afogado. Do motor que não funciona não por falta de combustível, mas por excesso. Isto é: você está tão a fim, tão afim que não consegue. É um motivo perfeitamente respeitável que não deve afligir ninguém, embora seja o mais frustrante. Sua causa é o perfeccionismo. Você finalmente vai fazer amor com a mulher dos seus sonhos. Um ideal que você persegue há anos, ou alguma beldade famosa que por uma dessas dádivas da providência cruzou olhar com o seu e disse com o olhar que sim. E agora você está prestes a possuí-la. Tudo tem que ser perfeito. Esta é a transa com que você se consolará nos anos do seu declínio, quando sua única zona erógena será a memória. É a transa que você contará para os netos. 

   A mulher dos seus sonhos já está na cama. A cama é perfeita. A iluminação é perfeita. A temperatura é perfeita. A umidade relativa do ar, os índices médios da bolsa, a colocação do Botafogo no campeonato, tudo. Só falta uma coisa. Seu tecido eréctil está fazendo que não é com ele. A mulher da cama pergunta por que você está assoviando. Você diz que é de contente. Ela pergunta por que você não vai para a cama. Você diz "você notou a vista daqui?", e dirige-se para a janela. Você se atira pela janela, para ganhar tempo.

domingo, 24 de abril de 2011

Outro Jesus - O Globo e Bom Dia (24/04/11)

"Eloi, Eloi, lama sabactani." As palavras de Jesus na cruz — "Deus, Deus, por que me abandonaste?" — estão em dois dos evangelhos, o de Mateus e o de Marcos. Os de Lucas e João não as registram. Não há muitas divergências entre os evangelhos, embora o quarto, de João, seja tradicionalmente considerado o mais literário, ou eloquente.

Os três primeiros, chamados "sinóticos" porque foram escritos mais ou menos ao mesmo tempo, incluem a passagem de Jesus em Getsêmani, quando ele pede a Deus que não exija seu martírio final e que passe dele o cálice amargo do sacrifício.

O evangelho de João, escrito depois dos outros três, não cita Getsêmani ou qualquer outra evidência de uma reação de Jesus ao seu destino. E a maior evidência desta reação, o apelo de Jesus na cruz para que Deus interrompa seu martírio como sustou a mão de Abraão quando este, seguindo suas ordens, preparava-se para imolar o próprio filho, só está em dois dos evangelhos e, curiosamente, nunca recebeu muita atenção nos cânones cristãos.

Mas se Jesus se sente abandonado na cruz sua história e o significado do seu sacrifício são outros. O Jesus suplicante de Mateus e Marcos não é o mesmo Jesus de Lucas e João. É um homem apavorado diante da perspectiva da morte e do silêncio do Pai, sem entender por que o mesmo poder que lhe permitiu fazer milagres não o salva da execução.

Nada é mais humano no Cristo dos dois primeiros evangelhos do que o seu medo. Antes deste Cristo sacrificado há as gerações que profetizaram e prepararam a sua chegada, depois virão sua ressurreição e sua glória, mas naquele momento só há o terror da morte comum a todos os homens.

"Eloi, Eloi, lama sabactani." Quem não ouviu ou não registrou o grito desesperado naquele dia em Gólgota não quis saber de um Cristo perplexo em vez de um Cristo resignado ao seu destino e cúmplice do seu fim.

Mas a perplexidade de Jesus na cruz é o que mais o aproxima de nós.

Mateus e Marcos não escreveram, afinal, só relato da revolta natural de um condenado à morte, o mistério e a grandeza da cena estão presentes nos seus evangelhos. Mas a frase que os outros ignoraram, e que a Igreja nunca explicou, ainda ecoa, dois mil anos depois.

O formato do umbigo - Estadão (24/04/11)

Aquela "pasta" curta e oca que os italianos chamam de "pene" tem este nome porque lembra o pênis, mas não deve ser verdade que a inspiração para o nome veio do pinto pequeno do Davi de Michelangelo. Os mesmos italianos dizem que os "tortellini" têm o formato do umbigo de Vênus, mas este parâmetro, como o pinto do Davi, também não é universal, felizmente. A variedade de umbigos - côncavos, convexos, redondos, alongados, etc. - é, mesmo, uma das coisas que nos diferenciam um dos outros.

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Muitas coisas nos unem. Somos todos bípedes mamíferos. Todos os nossos antepassados, sem exceção, eram férteis. Todos sobreviveram até no mínimo a puberdade e todos tiveram ao menos uma relação sexual, digamos, convencional, e procriaram. Somos portadores de uma linha ininterrupta de DNAs triunfantes, portanto, e essa ascendência idêntica nos permite não só um sentimento de família como um certo orgulho do que conquistamos como espécie. A Natureza e os germes têm feito o possível para interromper nossa linhagem, mas perseveramos e prevalecemos. Pelo menos até agora.

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Nossas diferenças estão nos detalhes. Machos e fêmeas, para começar pela diferença mais óbvia. A cor da pele, a diferença mais superficial e sem importância que existe. E detalhes mínimos, como o formato do umbigo. Sabe-se que há muito mais destros do que canhotos no mundo, mas que tipo de umbigo tem a maioria? E que porcentagem lembra um "tortellini"?

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O umbigo tem causado controvérsias há gerações. Discutiam se nas imagens do Paraíso, Adão e Eva deveriam aparecer com ou sem umbigo, já que não tinham nascido de partos normais e sim feitos por Deus. Uma corrente justificava a presença de umbigos no primeiro casal como uma espécie e "imprimatur" do Criador, um carimbo bem no centro do corpo garantindo o equilíbrio da imagem e a autenticidade da obra. Outros encerravam a questão argumentando que, como Deus tinha criado o Homem à sua imagem, apenas reproduzira em Adão e Eva seu próprio umbigo, e quem ousava especular sobre a origem do umbigo de Deus? Na arte religiosa, os umbigos de Adão e Eva permaneceram. Como símbolo, ao mesmo tempo a marca da nossa ligação vital com o ventre materno e através dele com a nossa ascendência comum, com o cordão metafórico que atravessa os séculos e nos conecta todos ao começo da espécie, e à marca da nossa individualidade.

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O formato do umbigo é uma das pequenas coisas que determinam se somos minoria ou maioria na nossa própria espécie. Podemos pertencer a categorias dominantes ou a pequenas dissidências, sem nunca saber. Quantos homens botam as mãos na cintura quando fazem xixi? Ou uma mão na cintura enquanto a outra garante a pontaria? Somos multidões ou uma confraria que não se conhece? É mais comum abotoar a camisa de cima para baixo ou de baixo para cima? E comer a casca do queijo? Ou gostar de bife de fígado? Você pode se achar meio esquisito sem suspeitar que a maioria das pessoas tem a mesma esquisitice, ou achar perfeitamente normal mastigar a gravata e não entender a estranheza dos outros. O importante é, minoria ou maioria, nunca perder a consciência de que somos todos descendentes da mesma linhagem, a dos que venceram tudo o que conspirava contra sua reprodução. E temos os umbigos para provar.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Teclado silencioso - Estadão, O Globo e Bom Dia (21/04/11)

Os escritores antigos escreviam muito mais do que nós. Acho até que existia uma relação direta entre a dificuldade para escrever e a quantidade - e a qualidade - do que era escrito. Não há nada parecido, na era do e-mail, com o volume de correspondência dos escritores a pena, que além de manuscrever livros que pareciam monumentos manuscreviam cartas que pareciam livros. Quanto mais fácil ficou escrever, menos os escritores escrevem. Os livros ficaram mais finos e a correspondência se reduziu a latidos digitais, breves mensagens utilitárias cheias de abreviaturas, "envia" e pronto. Já um George Bernard Shaw escrevia uma peça atrás da outra com introduções maiores do que as peças e ainda tinha tempo para escrever cartas para todo o mundo. Geralmente xingando todo o mundo, o que exigia mais tempo e palavras.

Desconfio que a nova técnica também modificou o jornalismo. As barulhentas redações pré-eletrônicas eram áreas conflagradas onde o combate com o teclado duro era um teste de resolução e resistência, um trabalho decididamente braçal. Depois vieram os computadores e o ambiente de chão de fábrica foi substituído pelo de laboratório. Tese: data da informatização o começo do desvio das redações para a direita. E isso que a gente muitas vezes confunde com linhas editoriais conservadoras dominando a nossa grande imprensa pode ser apenas um efeito do teclado silencioso. 

Racismo

O linguajar brasileiro está cheio de expressões racistas das quais não nos dávamos conta. Eram exemplos da condescendência que passava por tolerância entre nós. Termos como "crioulo", "negão", etc. eram considerados até carinhosos, do tipo de carinho que se dá a inferiores. Felizmente, são termos cada vez menos ouvidos. "Negro" foi substituído por "afrodescendente", por influência dos "afro-americans", num caso de colonialismo cultural positivo (em contraste com a substituição de "entrega" por "delivery"). Mas o racismo que não se reconhece continua no Brasil, e uma integração real pela linguagem viria mais rapidamente se as outras etnias adotassem autodenominações parecidas. Eu só teria dificuldade em definir minha ascendência com alguma concisão. Luso-ítalo-germano (e provavelmente afro)-descendente? Como boa parte dos brasileiros, não sou de uma linha, sou de um emaranhado.

A Legítima e a Outra

   A Outra tanto fez que conseguiu entrar na UTI, onde encontrou a legítima agarrada à mão dele. Deitado de barriga para cima, com tubos e fios saindo para todos os lados e conectando-o à aparelhagem em volta, ele parecia um avião recém-pousado depois de uma longa viagem. Um Boeing com as turbinas apagadas, mantido vivo pelo pessoal da terra.
   - Querido! - gritou a Outra, procurando uma parte dele que também pudesse agarrar.
   A Legítima nem piscou.
   - O que você fez com ele? - exigiu a Outra.
   A Legítima nada.
   - Eu sabia que cedo ou tarde você o mataria. - acusou a Outra.
   A Legítima, uma pedra.
   - Só comigo ele tinha o carinho de que precisava. Você fez isso com ele! Você! Com sua frieza, com sua maldade, com sua...
   Então a Legítima falou:
   - Nós estávamos fazendo amor.
   A Outra recuou como se tivesse levado um choque.
   - Mentira!
   A enfermeira fez "sssh", mas a Outra falou ainda mais alto.
   - MENTIRA!
   - Ele morreu nos meus braços - disse a Legítima no mesmo tom triunfal.
   - Ele não está morto - corrigiu a enfremeira.
   - Morreu nos meus braços, está ouvindo?
   - Despeito! Despeito! Ele só fazia amor comigo.

   - Sabe quais foram as suas últimas palavras?
   A Outra tapou os ouvidos.
   - Eu não quero ouvir!
   - Suas últimas palavras foram "Agora cruza!".
   - Não!
   - Sim! Sim! Nós estávamos fazendo o Alicate!
   - NÃO!
   Um médico apareceu e ameaçou retirar as duas de perto do paciente. Elas não lhe deram atenção. A Outra soluçava.
   - Não, O Alicate não!
   - Sim! Tudo o que ele fazia com você, ele fazia em casa. Experimentava em você para fazer comigo.
   A Outra interrompeu os soluços para espiar por entre os dedos que tapavam seu rosto e perguntar, incrédula:
   - A Borboleta também?
   - A Borboleta, A Chinesa Assoviadora, o Baile dos Cossacos...
   - NÃO!
   - Sssshh!!
   - Tudo. Tudo! Você era um campo de provas. Eu era pra valer. Com você era treino. Comigo era pelos pontos!
   Então a Outra gritou uma palavra indecifrável e avançou num dos aparelhos que cercavam a cama, tentando arrancar os fios, até ser controlada pelo médico e a enfermeira e empurrada para fora do cubículo. Da porta a Outra ainda conseguiu gritar:
   - O Salgueiro Despencado ele não fazia com você!
   - Fazia! Fazia!
   Perfilada ao lado da cama, a Legítima respirou fundo. Depois, sentou-se. Ia pegar a mão dele, mas recuou. Em vez disso, cochichou no seu ouvido.
   - Joca?
   Insistiu:
   - Joca?
   Depois:
   - Como era o Salgueiro Despencado?
   Depois:
   - Seu safado. Como era o Salgueiro Despencado?
   E o Boeing quieto.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Os hereges - Estadão (17/04/11)

Cristina, rainha da Suécia, convidou René Descartes para ser uma espécie de filósofo em residência no seu reino. Anos depois Catarina, czarina de todas as Rússias, convidou o enciclopedista francês Denis Diderot para ser a mesma coisa no seu palácio, o Hermitage, em São Petersburgo. Frederico o Grande da Prússia também quis ter o seu francês e mandou buscar Voltaire para ser seu interlocutor e consultor literário e legitimizar sua pretensão a rei-filósofo e filho do Iluminismo.

*** 

Descartes foi hostilizado pelos pensadores suecos como já tinha sido combatido pela Igreja na França. Escreveu de Estocolmo que lá as ideias congelavam, "exatamente como a água". E foi o frio da Suécia que o matou, embora se desconfie que os ciumentos médicos da corte tenham ajudado um resfriado a se tornar mortal. Denis Diderot ficou dois anos em São Petersburgo. Seu relacionamento com a czarina e sua corte foi pacífico e a separação foi amigável. Já a visita de Voltaire ao palácio de verão de Sans Souci, perto de Berlim, foi feliz até Voltaire ser preso a mando do rei quando tentava voltar para casa, acusado de quebra de contrato e corrupção e de ter roubado alguns dos seus poemas eróticos, provavelmente a acusação que mais doeu. 

*** 

O curioso é como os três (e outros como Rousseau, Condorcet, D"Alembert, que também levaram conselhos franceses a poderosos de outras terras) foram adotados por monarquias absolutas justamente por serem notórios hereges, cuja crítica à ortodoxia religiosa implicava, por tabela, uma crítica a todo poder absolutista, e cujas ideias mais tarde dariam origem às revoluções republicanas. (É de Diderot a frase "A humanidade só será livre no dia em que o último déspota for enforcado com as tripas do último padre".)

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Talvez os monarcas intuíssem que mostrar inquietação intelectual e credenciais progressistas os salvariam da onda racionalista que se aproximava, ou talvez apenas quisessem intelectuais iconoclastas aos seus pés, como animais domados. A razão dos intelectuais para aceitarem os convites era mais clara: na época não se recusava um bom patrono, ainda mais um patrono como verbas reais. Mas também inaugurava-se uma questão que atravessaria a História, a da relação dos intelectuais com o poder e do poder com os intelectuais. Onde termina o fascinação e a vaidade e começa a cumplicidade, onde termina a admiração e começa a cooptação?

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Uma versão caricata do intelectual cooptado é o bobo da corte, o único membro do reino autorizado a rir do rei. Mas se o filósofo em residência só se arriscava a ter suas ideias contestadas ou ignoradas, o bobo arriscava muito mais. Num cartum clássico, o bobo está prestes a ser executado no porão do castelo quando chega alguém correndo e grita: "Parem, parem, o rei entendeu a piada!" A piada era mais perigosa do que a ideia e seu castigo mais radical porque seu produto potencial era o ridículo, ou a heresia na sua forma mais cortante, e que o poder mais teme. O humorista era uma ameaça constante de ridículo irrecuperável. Aos intelectuais da corte bastava serem convivas interessantes, mesmo que críticos. Ajudava se você fosse francês.

domingo, 17 de abril de 2011

Crônica linguística, o que é isso? - Blog do Sérgio Rodrigues - Revista Veja

Cerca de dez anos atrás, sem imaginar que o filão renderia tanto, comecei a escrever na imprensa sobre assuntos de língua e linguagem. Não sou professor de português, gramático ou linguista, gosto sempre de lembrar, porque há quem se impressione mais com esses títulos do que com o texto em si – já fui chamado por leitores desavisados até de filólogo. Sou jornalista profissional há quase trinta anos e escritor com meia dúzia de livros publicados – a maioria de ficção, romances e contos, mas um deles, “What língua is esta?” (Ediouro), precisamente de… crônicas linguísticas. Mas que gênero será esse?
Pois bem. Depois de me meter um tanto estouvadamente na empreitada é que, pesquisando, fui encontrar uma longa linhagem de cronistas linguísticos na imprensa brasileira. Eu nunca os tinha lido sob esse prisma, mas Machado de Assis e Rubem Braga, por exemplo, sempre tiveram um carinho especial por questões de língua em suas crônicas. São saborosos os textos em que Machado ironiza a mania de criar neologismos do latinista Castro Lopes (1827-1901), inimigo das palavras francesas que infestavam o vocabulário brasileiro no século 19. Castro Lopes inventou, por exemplo, os nasóculos como substitutos do pince-nez, mas a palavra não vingou, como Machado, morrendo de rir, sabia que não vingaria. (Vamos fazer justiça: Castro Lopes inventou também a palavra cardápio, para substituir menu, e esta pegou.)
E a velha tradição da crônica sobre a angústia da folha em branco, da qual praticamente cronista nenhum escapou, será o quê, com seu aspecto reflexivo, metalinguístico? Entre os contemporâneos, Luis Fernando Verissimo também recorre com muita competência ao gênero. É natural que seja assim: a língua que compartilhamos é um caldo cultural riquíssimo. À parte quesitos como talento e renome, em que não dou nem para a saída, a diferença em relação a todos esses, digamos, “precursores” é o compromisso que assumi de tratar do assunto com regularidade, quaisquer que sejam as condições atmosféricas ou linguísticas do momento. A angústia da folha (ou tela) em branco sempre existirá, mas já não cabe transformá-la em tema. Melhor contar uma historinha como essa, fazer um aceno a Machado e Verissimo, e quando menos se espera chega o ponto final.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

'Por que os homens mentem?' faz quarta temporada em São Paulo

A comédia  Por que os Homens Mentem? faz sua quarta temporada na capital paulista, no Teatro das Artes, no Shopping Eldorado, zona oeste de São Paulo, entre os dias 15 de abril e 1º de maio, às sextas, sábados e domingos.
Divulgação
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Cena do espetáculo 'Por que os homens mentem'
Na peça, os atores Alessandre Pi, Charles Ferreira, Christian Hilário, Juliano Mazurchi e Ricardo Vandré - da Nósmesmos Produções Artísticas - se revezam entre papéis masculinos e femininos e trazem cenas do cotidiano onde a mentira parece inevitável. "As estórias mostram que não dá para dizer a estrita verdade a todo mundo que você encontra por aí. Imagina falar tudo o que você pensa para sua esposa, os amigos e o patrão, por exemplo", comenta Mazurchi, também diretor artístico da companhia.
O espetáculo é uma adaptação da obra As mentiras que os homens contam, de Luís Fernando Veríssimo, e tem duração de 90 minutos. Dividida em dez esquetes - Os Moralistas, A Aliança, Clic, Farsa, Brocha, Infidelidade, Grande Edgar, O Mendoncinha, Bolhas de Champagne e HQEH - Por que os homens mentem já contabiliza mais de 150 mil espectadores.

POR QUE OS HOMENS MENTEM?
Teatro das Artes - Shopping Eldorado - 3º piso
Av. Rebouças, 3.970, Pinheiros - São Paulo
15 de abril a 1º de maio, toda sexta, sábado e domingo
Sexta 21h | Sábado 21h | Domingo 18h
R$ 40 (inteira).
COMPRA ANTECIPADA: www.ingresso.com.br
Fonte: Estadão

O encontro

   Ela o encontrou pensativo em frente aos vinhos importados. Quis virar, mas era tarde, o carrinho dela parou junto ao pé dele. Ele a encarou, primeiro sem expressão, depois com surpresa, depois com embaraço, e no fim os dois sorriram. Tinham estado casados seis anos e separados, um, e aquela era a primeira vez que se encontravam depois da separação. Sorriram, e ele falou antes dela; quase falaram ao mesmo tempo.
   ― Você está morando por aqui?   
   ― Na casa do papai.
   Na casa do papai! Ele sacudiu a cabeça, fingiu que arrumava alguma coisa dentro do seu carrinho ― enlatados, bolachas, muitas garrafas ―, tudo para ela não ver que ele estava muito emocionado.
   Soubera da morte do ex-sogro, mas não se animara a ir ao enterro. Fora logo depois da separação, ele não tivera coragem de ir dar condolências formais à mulher que, uma semana antes, ele chamara de vaca. Como era mesmo que ele tinha dito? “Tu és uma vaca sem coração!” Ela não tinha nada de vaca, era uma mulher esbelta, mas não lhe ocorrera outro insulto. Fora a última palavra que ele lhe dissera. E ela lhe chamara de farsante. Achou melhor não perguntar pela mãe dela.
   ― E você? ― perguntou ela, ainda sorrindo. 
   Continuava bonita...
   ― Tenho um apartamento aqui perto.
   Fizera bem em não ir ao enterro do velho. Melhor que o primeiro reencontro fosse assim, informal, num supermercado, à noite. O que é que ela estaria fazendo ali àquela hora?
   ― Você sempre faz compras de madrugada?
   Meu Deus, pensou, será que ela vai tomar a pergunta como ironia?
   Esse tinha sido um dos problemas do casamento, ele nunca sabia como ela ia interpretar o que ele dizia. Por isso, ele a chamara de vaca, no fim. Vaca não deixava dúvidas de que ele a desprezava.
   ― Não, não. É que estou com uns amigos lá em casa, resolvemos fazer alguma coisa para comer e não tinha nada em casa.
   ― Curioso, eu também tenho gente lá em casa e vim comprar bebidas, patê, essas coisas.
   ― Gozado.
   Ela dissera uns amigos. Seria alguém do seu tempo? A velha turma? Ele nunca mais vira os antigos amigos do casal. Ela sempre fora mais social do que ele. Quem sabe era um amigo? Ela era uma mulher bonita, esbelta, claro que podia ter namorados, a vaca.
   E ela estava pensando: ele odiava festas, odiava ter gente em casa. Programa, para ele, era ir para casa do papai jogar buraco. Agora tem amigos em casa. Ou será uma amiga? Afinal, ele ainda era moço... Deixara a amiga no apartamento e viera fazer compras. E comprava vinhos importados, o farsante.
   Ele pensou: ela não sente minha falta. Tem a casa cheia de amigos. E na certa viu que eu fiquei engasgado ao vê-la, pensa que eu sinto falta dela. Mas não vai ter essa satisfação, não senhora.
   ― Meu estoque de bebidas não dura muito. Tem sempre gente lá em casa ― disse ele.
   ― Lá em casa também é uma festa atrás da outra.
   ― Você sempre gostou de festas.
   ― E você, não.
   ― A gente muda, né? Muda de hábitos...
   ― Tou vendo.
   ― Você não me reconheceria se viesse viver comigo outra vez.
   Ela, ainda sorrindo:
   ― Que Deus me livre.
   Os dois riram. Era um encontro informal.
   Durante seis anos, tinham se amado muito. Não podiam viver um sem o outro. Os amigos diziam: "Esses dois, se um morrer o outro se suicida." Os amigos não sabiam que havia sempre uma ameaça de mal-entendido entre eles. Eles se amavam mas não se entendiam. Era como se o amor fosse mais forte, porque substituía o entendimento, tinha função acumulada. Ela interpretava o que ele dizia, ele não queria dizer nada.
   Passaram juntos pela caixa, ele não ofereceu para pagar, afinal era com a pensão que ele lhe pagava que ela dava festas para uns amigos. Ele pensou em perguntar pela mãe dela, ela pensou em perguntar se ele estava bem, se aquele problema do ácido úrico não voltara, começaram os dois a falar ao mesmo tempo, riram, depois se despediram sem dizer mais nada.
   Quando ela chegou em casa ainda ouviu a mãe resmungar, da cama, que ela precisava acabar com aquela história de fazer as compras de madrugada, que ela precisava ter amigos, fazer alguma coisa, em vez de ficar lamentando o marido perdido. Ela não disse nada. Guardou as compras antes de ir dormir.
   Quando ele chegou no apartamento, abriu uma lata de patê, o pacote de bolachas, abriu o vinho português, ficou bebendo e comendo sozinho, até ter sono e aí foi dormir.
   "Aquele farsante", pensou ela, antes de dormir.
   "Aquela vaca", pensou ele, antes de dormir.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Êxtase - Crônica do Estadão, Bom Dia e O Globo (14/04/11)

Ele falou que sempre que via um pôr de sol bonito como aquele sentia que não era para ele. Não sabia explicar. Era como se o pôr do sol fosse para outros e ele estivesse vendo clandestinamente, sem autorização, espiando o que não lhe dizia respeito. Sentia-se, assim, um penetra no espetáculo dos outros. Ela não entendeu. Você acha que não merece, é isso? Que é bonito demais para você? Que você não tem direito a um pôr do sol dessa magnitude? Que o sol deveria se pôr com mais discrição para pessoas como você, que cada pôr do sol deveria ter uma versão condensada, menos espetacular, para os imerecedores da Terra, é isso? Não, não, disse ele. Eu mereço. Não é uma questão de humildade. É uma questão de... E deu outro exemplo. Sorvete de doce de leite. Sempre que comia sorvete de doce de leite tinha a mesma sensação de clandestinidade. Aquela doçura, aquele prazer, não podia estar assim disponível para todos como, como... como um pôr do sol! Era preciso haver uma hierarquia no direito às coisas magníficas, senão nenhuma escala de valores na vida tinha sentido. Se qualquer um podia comer um sorvete de doce de leite quando quisesse que sensação sobraria para as grandes epifanias, para o êxtase das grandes revelações? Comer um sorvete de doce de leite nivelava toda a experiência humana, diante de um Michelangelo ou de uma chuva de estrelas a sensação seria a mesma. Lera em algum lugar que os fabricantes de sorvete de doce de leite tinham hesitado muito antes de lançar o produto no mercado. A preocupação deles era outra: temiam a corrupção irrecuperável da humanidade. Depois de provar sorvete de doce de leite as pessoas poderiam se ver fragilizadas, indefesas diante da autoindulgência e da lubricidade, ou perdidas pela culpa. Tinham até pensado em vender o sorvete com um aviso, como os cigarros. "Atenção: pode causar dependência e ruína moral." Ele não defendia uma aristocracia com acesso exclusivo ao bom e ao bonito. Só achava que ver um pôr do sol fantástico comendo sorvete de doce de leite deveria ser, assim, como se você fosse um dos escolhidos do mundo, com o crachá correspondente. Licença para se extasiar. E então ele deu outro exemplo: você aqui na minha frente, com as cores do pôr do sol refletidas no seu rosto. Uma exclusividade minha, um privilégio dos meus olhos, uma injustiça para todos os homens do planeta que estão olhando outra coisa. E ela falou "Não exagera, vai".
***
Reali. Nunca a palavra "perda" para descrever uma morte foi tão apropriada.
Com a morte do Reali Jr., o jornalismo brasileiro perdeu uma das suas grandes figuras e a perda para os seus muitos amigos é indescritivelmente dolorida. 

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Chineses II

   ...chinês, chinês, chinês, chinês... Atendendo a inúmeros pedidos que eu mesmo fiz diante do espelho, continuo hoje as terríveis considerações sobre o que será do mundo quando houver dois chineses por cada metro quadrado de terra seca, e dois chine­ses pela cintura por metro quadrado de terreno alagadiço.
   Em primeiro lugar, desaparecerão todas as nossas noções atuais de vida privada. Tudo terá que ser feito na frente dos chineses. O que não será tão ruim, a não ser que os chineses que ocuparem, por exemplo, nossos quartos de dormir se revelarem críticos com alguma ironia. Que desempenho conjugal será possível entre comentários sarcásticos sobre es­tilo, duração, dimensões, freqüência, etc.?
   — Já?!
   — Ainda bem que terminou. Se continuasse assim por mais um minuto eu ia começar a vaiar...
   — Ele não é mais o mesmo.
   — Talvez porque ela seja sempre a mesma...
   — Ri, ri, ri...
   Mas nem todas as perspectivas são terríveis. Os chineses tornarão desnecessários todos os modernos — e caros — meios de telecomunicação. Em vez de passar um telegrama, você só terá que abrir a janela e dizer para o chinês mais próximo:
   — Telegrama para o Rio de Janeiro. Rua tal, número tal. “Consegui um lugar na lista de espera do Super Jumbo pt Estarei no Rio dentro de dois anos pt Abraços.” Passe adiante.
   O chinês da janela passará a mensagem para o chinês do seu lado, este a passará para o chinês do seu lado, este para outro, o outro para outro e assim por diante até ela chegar ao Rio de Janeiro. É claro que o último chinês da corrente dará o recado trocado — sempre haverá um safado entre Registro e São Paulo que mudará tudo — mas pelo menos será bem mais barato.
   Nas salas de visita, uma votação decidirá o programa de TV a ser visto cada noite.
   — Aqui estão os resultados. Atenção: a favor do Fantástico, oitenta votos. A favor do Jogo Aber­to, setenta e dois. Os donos da casa, ridiculamente, votaram no Flávio Cavalcanti. Cinco votos.
   — Ri, ri, ri...
   E as filas? Você receberá um telefonema no meio da noite. Quer dizer, o chinês da janela baterá na vidraça e transmitirá um recado urgente. Morreu um chinês na sua frente na fila do cinema. A vaga é sua, mas corra!
   O filme é Kung Fu contra o bisneto do chefão. Há oito anos que você espera para entrar no cinema. Você já subornou oitocentos chineses para chegar mais perto da bilheteria. E agora há uma vaga na sua frente. Você sai correndo, pisando em chineses. Só para descobrir que o chinês que guardava o seu lugar na fila casou com a chinesa da frente, teve sete filhos enquanto esperava e pegou a vaga para o seu pri­mogênito.
   Haverá filas para entrar em filas. Os trens urbanos serão tão compridos que se estenderão do prin­cípio ao fim da linha, sem se mexer. Você correrá por dentro do trem, por cima de chineses, para chegar onde quer ir — e entrar na fila. As crianças serão colocadas nas filas do INPS logo depois de nascerem para chegarem ao guichê a tempo de reclamar apo­sentadoria. Cada dois chineses plantarão um pé de soja no seu metro quadrado de campo. A atenção ao pé de soja será total. O método de cultivo será tão artesanal que o pulgão morrerá por estrangulamento, ouvindo insultos pessoais o tempo todo.
   E o pior não é isto. Imagine a luta para arran­jar lugar em restaurante no sábado!

terça-feira, 12 de abril de 2011

Romances: Os espiões (Alfaguara, 2009)

O romance Os Espiões é a sexta narrativa longa do autor. Curiosamente, é o primeiro livro que o próprio Veríssimo considera “seu”, do início ao fim. A proposição parece estranha mas a explicação é simples: é a primeira vez que Veríssimo escreve um romance por impulso próprio. As demais narrativas longas do autor (O Jardim do Diabo, O Clube dos Anjos, Borges e os Orangotangos Eternos, O Opositor e A Décima Segunda Noite) nasceram todas ou de provocações ou de encomendas das editoras.
Como é praxe na obra de Verissimo, o livro tem um registro que trabalha a meio caminho entre a paródia e o exercício da literatura de gênero – desta vez, menos o policial propriamente dito, trabalhado em quase todos os outros romances. Agora, Veríssimo mira em um ramo particular da literatura de mistério: o thriller de espionagem praticado por seu ídolo John Le Carré. Mas, sendo Veríssimo, é claro que o escritor subverte o gênero.
"É meio difícil de resumir, é uma história de espionagem que não se passa no mundo da alta espionagem e sim uma cidade fictícia do interior do Estado – conta o autor, que, é óbvio, imprimiu a marca de seu humor pessoal à obra. – É um pouco de paródia e ao mesmo tempo não é. O livro tem humor, mas acaba mal. É a história de um cara que trabalha numa editora e um dia recebe um original de uma mulher do Interior do Estado, e ele se apaixona por ela por causa do texto, e sai à procura para tentar descobrir quem é."
Outra vez, portanto, Veríssimo escreve um romance que tem no próprio ato narrativo seu eixo temático. Seus romances são sempre conduzidos na primeira pessoa, e jogam em maior ou menor grau com as fronteiras entre o personagem encarregado de contá-la e o autor, Veríssimo, que concede a ele tal missão. A metalinguagem e a presença da literatura como tema e pretexto é recorrente.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A tática da bolsa - Crônica do Estadão (10/04/11)

A Jussara estava a fim de um cara e bolou um plano para conhecê-lo. Ou para ele a conhecer. Um plano minucioso, que descreveu para as amigas como se fosse uma operação militar. Em vez de conquistar um reduto inimigo, Jussara conquistaria o cara, que se renderia ao seu ataque. Ela acreditava que, no amor como na guerra, planejamento era tudo.

***

Jussara sabia que José Henrique - o nome do cara era José Henrique - tinha dinheiro e não tinha namorada firme, duas precondições para seu plano valer a pena. Era bonito, era um intelectual (andava sempre com um livro embaixo do braço) e tinha hábitos regulares. Todos os dias saía do trabalho e sentava-se numa mesa de bar, sempre a mesma mesa, para comer uma empada e tomar uma cerveja (só uma, e ele não fumava nem tinha qualquer outro vício aparente) antes de ir pegar seu carro num estacionamento próximo. Geralmente bebia sozinho e ia direto para casa, onde morava com a mãe viúva. 

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O ataque, de acordo com a melhor tática militar, deveria ser de surpresa. Mas surpreendente apenas o bastante para ser inesquecível sem assustar o cara. A ideia da Jussara era que, no primeiro contato, ele já descobrisse tudo sobre ela. O que ele faria com essa informação dependeria do que viesse depois. Ou, como disse a Jussara, "dos desdobramentos". Mas no primeiro instante ele teria que saber tudo a seu respeito. Como conseguir isso?

***

Com a bolsa. As amigas se entreolharam. Com a bolsa? Com a bolsa. Jussara entraria no bar remexendo na sua bolsa, fingindo procurar alguma coisa com tanta concentração que esqueceria de olhar para frente, e esbarraria no José Henrique, derramando todo o conteúdo da bolsa na mesa à sua frente, ou no chão ao seu lado.
- E o conteúdo da bolsa dirá tudo o que ele precisa saber a meu respeito, entendem? Serei eu dentro da bolsa. Tudo o que eu sou, tudo o que eu gosto. Ele vai me ajudar a colocar as coisas de volta dentro da bolsa e em poucos minutos conhecerá minha alma e minha biografia.

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Jussara já sabia o que colocaria dentro da bolsa. Um bonequinho de pelúcia que certamente enterneceria o cara, mostrando seu coração bom e algo infantil. Envelopes com sementes, mostrando sua preocupação com o meio ambiente. E um livro, para ele saber que ela também lia. Mas precisava decidir: que livro? Estava aceitando sugestões. Poesia? Martha Medeiros? Karl Marx? Pornopopeia? O Pequeno Príncipe? Qual faria maior efeito? Escolheram um Saramago, desde que não fosse muito pesado.

***

E o encontro se deu. Todo o conteúdo da bolsa da Jussara caiu na frente do cara, que ajudou a botá-lo de volta, como previsto. Mas ele nem notou o livro e as outras coisas. Pegou um estojo de maquiagem da Jussara e disse: "Eu uso o mesmo blush!". 

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A Jussara culpa seu fracasso numa falha que costuma frustrar as operações militares: reconhecimento insuficiente do terreno.

- Faltou pesquisa - lamenta.

Nas altas esferas - Crônica do jornal O Globo e do Bom Dia (10/04/11)

Suponho que mesmo antes do combate entre Golias, representando os filisteus, e Davi, representando os israelitas, fosse comum as nações designarem lutadores para resolver suas diferenças sem a necessidade de batalhas demoradas e sangrentas que sacrificavam milhares. Um contra um era uma maneira prática e justa de fazer a guerra — mesmo que, no caso de Davi e Golias, a desproporção entre os combatentes fosse notória: Golias só tinha o tamanho e a força bruta, Davi tinha a juventude e a técnica, além de Jeová ao seu lado. (Há quem date daí a discussão sobre arte x força que, séculos mais tarde, viria dominar as conversas sobre futebol no Brasil.)

Não sei por que as atuais diferenças entre cristãos, muçulmanos e judeus não podem ser resolvidas da mesma maneira, os três lados designando seus heróis — no caso o deus de cada um — para representá-los num torneio nas altas esferas, poupando milhares de vidas entre os seus seguidores aqui embaixo.

O Deus cristão, Alá e Jeová decidiriam, de alguma forma — talvez em duelos de relâmpagos, ou no mínimo no par ou impar — qual dos três é a única divindade legitima, desobrigando seus fiéis na Terra de recorrerem a bombas e Tomahawks. Sei lá, é só uma ideia.

Chuchu II

No domingo passado escrevi sobre o chuchu. Mais especificamente sobre a origem da expressão "pra chuchu", e como seria sua tradução em inglês. Só revelei minha total ignorância de botânica e etimologia, como não pararam de me dizer parentes, amigos e leitores.

Usa-se "pra chuchu" como sinônimo de muito porque chuchu vem de uma trepadeira especialmente dadivosa, que o produz... bom, pra chuchu. O nome do vegetal em inglês é "chayote" mas este também é o seu nome em espanhol, pois ele nasceu no México.

O nome vem de "chayohtli", na língua nahuatl. Em francês "chou" é couve mas lá dizem muito, para filhos e amantes, "chou-chou", como em "viens, mon chou-chou". Na Índia ele se chama "chow-chow". É da mesma família do pepino e do melão, mas eles negam.

Fracasso

Talvez já tenha havido um acordo nas altas esferas, uma decisão dos três grandes de se aposentarem e terceirizarem a função de gerir o universo, devolvendo-a aos velhos deuses pagãos. Pois se a história do mundo nos últimos séculos ensina alguma coisa é o fracasso dos monoteísmos.