Filho de Érico Veríssimo, um dos maiores nomes da literatura nacional, Luis Fernando Verissimo nasceu em Porto Alegre, em 26 de setembro de 1936. Aos 16 anos, foi morar nos EUA, onde aprendeu a tocar saxofone, hábito que cultiva até hoje – tem um grupo, o Jazz 6. É jornalista, mas “do tempo em que não precisava de diploma para exercer a profissão”. Antes de se dedicar exclusivamente à literatura, trabalhou como revisor no jornal gaúcho Zero Hora, em fins de 1966, e atuou como tradutor, no Rio de Janeiro. Casado há mais de 30 anos com Lúcia Verissimo (“não é a atriz, não é a atriz!”), sua primeira “namorada séria”, tem três filhos: Fernanda, Mariana e Pedro.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Bons e maus darwinistas - O Globo; Bom Dia (18/12/2011)


Darwinistas bem pensantes se vêm frequentemente obrigados a explicar que aceitar tudo que Darwin disse a respeito de seleção natural, sobrevivência dos mais fortes etc. não significa acreditar que o que se aplica aos animais também se aplica aos homens. Ou seja, darwinismo social, não.

O próprio Richard Dawkins, o darwinista mais conhecido em atividade hoje, já disse em mais de um dos seus textos ser possível viver num universo amoral, o universo darwiniano em que a única regra é a vitória do que ele mesmo chama de “gene egoísta” na competição pela vida, e cobrar da sociedade humana um comportamento moral.

Darwinistas mal pensantes, claro, não precisam explicar nada. Para eles o darwinismo social justifica mercados desregulados, empreendedores aéticos e todas as manifestações do gene egoísta que tornam o capitalismo selvagem parecido com o mundo natural.

Darwin só não ganhou seu lugar na galeria dos heróis da livre empresa, ao lado do Adam Smith, porque são raros os poderosos e endinheirados que não atribuem sua boa fortuna a Deus, em vez da evolução.

Mesmo antes de Darwin nos dar a incômoda notícia de que todos descendíamos de macacos (menos os meus antepassados, que foram adotados) e que pertencíamos a uma espécie tão sem caráter quanto qualquer outra, essa divisão entre o que éramos e o que pretendíamos ser já existia.

O capitalismo moderno e a moral burguesa nasceram juntos e desde então vêm coexistindo nem sempre pacificamente. Há muito tempo vivemos em dois universos simultaneamente, um em que o poder do dinheiro tudo determina, da nossa vida política à nossa digestão — com picos de ganância sem controle do capital financeiro como o que originou a crise atual —, e outro em que ignoramos esta omnipotência e nos imaginamos seres racionais e até altruístas, ou em nada parecidos com um macaco egoísta.

Uma forma do bom darwinista conciliar sua crença na evolução amoral das espécies e sua crença de que o Homem é diferente é cultivar a ideia de que o desenvolvimento da consciência humana foi, mais do que uma evolução natural, uma mudança radical na história dos habitantes deste planeta.

Como nenhum outro bicho, somos conscientes de nós mesmos, do nosso passado e dos nossos possíveis futuros. Consciência não muda o poder do dinheiro nem assegura um comportamento moral da nossa espécie — ainda. Mas nos próximos milhões de anos, quem sabe?

A evolução ainda não terminou.

4 comentários:

Unknown disse...

Amo Luis Fernando Veríssimo, mas é horrível esse blog com essa transparência...fica ruim para ler. Se fosse o Ed Mort, ele certamente estaria sendo ridicularizado pelo voltaire e as baratas do escritório, com o nariz grudado na tela do computador para conseguir ler as letras pequenas e o cérebro ter que abstrair as imagens atrás da transparência. Please!!! bjs

Afonso Guedes disse...

Mais uma Darwinista do LFV. Como sempre irretocável.

luti disse...

LFV, grande mestre, concordo literalmente com o texto, do ponto de vista que, o capitalismo de livre mercado é de fato uma selva em que sobrevive apenas o mais forte (rico). Apenas gostaria de ressaltar, que o Darwin, um verdadeiro gênio até hoje contestado (em muitas escolas, na aula de História, o planeta é criado no Gênesis e o aparecimento do homem, instantâneo. Infelizmente, cientistas como Darwin, Einstein e mesmo Nietzsche, tem seus conceitos apreendidos e incorporados ideologicamente (como no caso do famoso tripulante do Beagle, o foi pela burguesia). Feita essa ressalva, realmente o capitalismo de livre mercado é uma floresta selvagem para os que não tem chance, mas sendo um forma de produção econômica, deve ser aproveitada com cuidado e atenção, tal a energia atômica, pois ambas geram energia, riqueza e até proteção (dissuasão nuclear), mas sem controle são um perigo para a humanidade (vide imperialismo europeu, duas guerras, Hiroshima e Nagasáqui). Parabéns pelo texto, e abraço deste grande fã do teu trabalho!

André Lacerda disse...

Valeu pelo artigo (8/5/14), Luis Fernando. Seu texto auxilia as pessoas (de boa índole, é verdade) a entenderem que “o caminho” que está sendo trilhado não é, em essência, uma questão ideológica, e sim, uma forma de manter e ampliar privilégios a custa da miséria alheia. E pelas opiniões de alguns internautas nos jornais eblogs, está cada vez mais patente que quem quer manter a velha pendenga esquerda-direita, ou faz por ignorância ou tem como real interesse esconder os reais motivos. Abraço

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