Filho de Érico Veríssimo, um dos maiores nomes da literatura nacional, Luis Fernando Verissimo nasceu em Porto Alegre, em 26 de setembro de 1936. Aos 16 anos, foi morar nos EUA, onde aprendeu a tocar saxofone, hábito que cultiva até hoje – tem um grupo, o Jazz 6. É jornalista, mas “do tempo em que não precisava de diploma para exercer a profissão”. Antes de se dedicar exclusivamente à literatura, trabalhou como revisor no jornal gaúcho Zero Hora, em fins de 1966, e atuou como tradutor, no Rio de Janeiro. Casado há mais de 30 anos com Lúcia Verissimo (“não é a atriz, não é a atriz!”), sua primeira “namorada séria”, tem três filhos: Fernanda, Mariana e Pedro.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Cuecas


   Giselda confidenciou a Martô, sua melhor amiga, que nada no noticiário recente a abalara mais do que a volta à moda da cueca samba-canção.
   - Não sei se você entende - disse Giselda.
   - Eu entendo - disse Martô.
   - O Júlio usa cueca samba-canção - disse Giselda.
   - Eu sei - disse Martô.
   - E isso me dava uma certa segurança. Entende?
   Martô entendia. Era o fim da tarde. As duas tinham tirado os sapatos e estavam com os pés sobre a mesinha de centro, na sala da Giselda. Jovens senhoras.
   - Bobagem, claro - disse Giselda. - Mas, entende?
   - Perfeitamente - disse Martô.
   - Eram, assim, como um símbolo. As cuecas do Júlio. De estabilidade. De bom senso. Até de uma certa resignação diante da vida. Mas no bom sentido.
   - Claro.
   - Imagina se um dia ele me aparece de Zorba. De sunga. Colorida! Sinal de quê?
   - Outra.
   - Isso. Ou outras.
   - Podes crer.
   - Mas não. Ele insistia nas cuecas samba-canção. Até tinha horror a novas. Queria sempre as mesmas. Rasgadas, não importava. Você podia desconfiar de alguma coisa de um homem assim? Vou dizer uma coisa. Cueca é caráter.
   - Quem vê cueca vê coração.
   - Você acha que eu estou brincando?
   - O que é isso? Eu estou concordando com você.
   - Eu insistia para ele trocar de cuecas. Mas no fundo, no fundo, gostava que ele fosse assim. E agora isso...
   - O quê?
   - As cuecas samba-canção na moda de novo. Entende?
   - Anrã.
   - Ele não vai mais ter vergonha de tirar as calças na frente de outra.
   - Ou outras.
   - Ou outras. Pode até dizer que não tem culpa. Não foi ele que mudou, foi a moda. Continua o mesmo homem sério e conservador. Não foi ele que resolveu sair para a vida, a vida é que veio atrás dele. Vou ter que ficar de olho. Agora sim. Olho vivo. Ou eu estou exagerando?
   - Não, não.
   Depois que Martô saiu, Giselda foi tratar do jantar das crianças e do Júlio. Só horas mais tarde, vendo o filme na TV com o Júlio roncando ao seu lado, repassando a conversa daquela tarde, é que se deu conta. Telefonou para a Martô.
   - Martô?
   - O que é, Gi?
   - Quando eu disse que o Júlio só usa cueca samba-canção...
   - Sim?
   - O que é que você quis dizer com “eu sei”?!

2 comentários:

Meire Schmidt disse...

amoooooooooooooo!!!!!!!!!!!!

Nicolle msp disse...

melhor conto!

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